Inteligência artificial e o mundo dos eventos
Quando a tecnologia se torna o calcanhar de Aquiles ao apresentar sua empresa
Evento: aquilo que acontece, acontecimento. A própria origem da palavra que define nossas operações remete a algo verdadeiro, algo que existe, existiu ou irá existir. Esse ponto pode parecer apenas uma curiosidade, mas diz muito sobre o nosso trabalho e sobre a forma como as empresas de eventos estão se apresentando atualmente.
Hoje, praticamente todo o mercado de eventos, assim como boa parte das empresas de outros setores, está envolvido de alguma maneira com a inteligência artificial, direta ou indiretamente. As ferramentas chegaram como solução para diversos problemas diários e também para tarefas que nem eram exatamente problemas, mas que passaram a ser realizadas com mais rapidez. Em um grande evento, a inteligência artificial pode ajudar a conferir listas de presença, organizar pessoas, facilitar pagamentos, comparar orçamentos, verificar peças, ordenar atendimentos e realizar uma infinidade de outras tarefas.
Grande parte desses usos permanece nos bastidores. São recursos que auxiliam a organização, economizam tempo e permitem que os profissionais se concentrem no que realmente exige atenção humana. Acredito que foi assim que a inteligência artificial começou a entrar no mercado de eventos: de forma tímida, por meio de pequenas mudanças e melhorias no cotidiano das equipes.
Com o passar do tempo, porém, comecei a notar uma mudança entre concorrentes, fornecedores, parceiros e até clientes. A inteligência artificial deixou os bastidores e começou a assumir um protagonismo que pode complicar a relação das empresas com o próprio mercado.
Estamos em 2026, e o uso massivo dessas ferramentas ainda é muito recente. Não é simples para uma empresa absorver uma tecnologia que chegou com tanta força, aprender a utilizá-la e, em pouco tempo, compreender onde está exagerando ou errando. Por isso, não acredito que essas empresas estejam necessariamente agindo de má-fé ou cometendo algum pecado imperdoável. Muitos de nós ainda estamos naquele momento de pensar: não posso ficar para trás, preciso aprender e colocar isso em prática.
O problema é que, nessa pressa, a inteligência artificial começou a ocupar espaços nos quais talvez não devesse ser protagonista.

A imagem real ainda tem mais valor
Quando você entra no site de uma empresa de eventos, o que espera encontrar? Muito provavelmente, eventos. Eles costumam ser apresentados por meio de vídeos, fotografias e textos. Se você está procurando uma empresa para atender seu próximo evento, é natural querer ver o que ela já realizou, como trabalha e o que pode entregar.
Nos últimos meses, o que tenho visto é uma avalanche de empresas substituindo fotografias de eventos reais por imagens geradas por inteligência artificial. Aos poucos, registros de acontecimentos verdadeiros dão lugar a ilustrações de lugares que nunca existiram, com pessoas que não participaram de nada e estruturas que nunca foram montadas. Em vez de mostrar uma experiência, a empresa apresenta uma fantasia.

É claro que a imagem pode ser identificada como uma ilustração, uma referência ou uma ideia. Ainda assim, o público está ficando mais familiarizado com esse tipo de conteúdo e começa a perceber alguns padrões. Quando alguém procura uma empresa para realizar um evento e encontra imagens que não representam trabalhos reais, pode surgir uma insegurança bastante compreensível: será que essa empresa já fez algo parecido ou está apenas mostrando o que gostaria de fazer?
Não dá para dizer automaticamente que a empresa está errada, que é mal-intencionada ou que teve preguiça de produzir conteúdo próprio. Esse movimento faz parte da inserção da inteligência artificial no nosso mercado, e todos ainda estão aprendendo. Mas já podemos começar uma discussão sobre como certos usos da tecnologia podem jogar contra a própria natureza do mundo dos eventos.
O problema fica ainda mais evidente quando as imagens artificiais deixam de representar apenas eventos e passam a ilustrar os próprios serviços oferecidos. Imagine entrar em um site querendo entender exatamente o que está contratando e encontrar uma imagem gerada por inteligência artificial no lugar do serviço real. É contraditório, né? Uma ilustração pode perfeitamente ser artificial, pois continua sendo uma ilustração. Mas, quando uma empresa oferece um serviço para eventos, até a forma de apresentá-lo precisa guardar alguma relação com aquilo que o cliente realmente receberá.
Como um cliente ou parceiro pode imaginar a entrega por meio de uma imagem de algo que nunca aconteceu? A inteligência artificial consegue produzir imagens muito bonitas e cada vez mais convincentes, mas elas continuam sendo imagens produzidas por IA. Elas não são registros daquele evento, daquele serviço, daquela equipe ou daquela estrutura.
Se eu puder dar uma dica a quem trabalha com eventos, é esta: uma fotografia real um pouco borrada, mais escura ou feita com um celular antigo pode ser mais interessante do que uma imagem perfeita de algo que nunca existiu. A fotografia real mostra um evento verdadeiro, realizado em um lugar verdadeiro, com pessoas verdadeiras. Naturalmente, sua publicação deve respeitar a LGPD, as autorizações necessárias e o bom senso, mas esse registro carrega algo que nenhuma ilustração artificial consegue substituir.
Com o passar do tempo, acredito que a própria imperfeição da realidade se tornará mais atraente do que a imagem mais bonita produzida pela inteligência artificial mais avançada. A imperfeição nos encanta e sempre será assim. Mesmo quando uma ferramenta tenta criar artificialmente uma pequena falha, um detalhe fora do lugar ou uma aparência espontânea, aquilo ainda não tem o mesmo peso da imperfeição de algo que realmente aconteceu.
Quando a inteligência artificial escreve por você
Existe outro espaço no qual a inteligência artificial começou a ocupar um protagonismo ainda mais complicado: os textos. Isso aparece nas páginas dos sites, nas conversas pelo WhatsApp, nas respostas de e-mail, nos orçamentos e até nas negociações com clientes, fornecedores e parceiros.
Também precisamos entender algumas mudanças profundas na forma como as pessoas consomem informação. Depois da pandemia e da popularização dos vídeos curtos no TikTok, no Instagram e até no YouTube, nossa comunicação passou a disputar atenção em um ambiente muito mais acelerado. Muitos desses vídeos apresentam a conclusão logo no início porque sabem que precisam convencer o espectador a permanecer por mais alguns segundos.
Seria exagerado afirmar que uma geração inteira simplesmente perdeu a capacidade de prestar atenção. O assunto é mais complexo. Ainda assim, uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, reunindo 71 estudos e 98.299 participantes, encontrou associação entre o uso mais intenso de vídeos curtos e piores indicadores de cognição, principalmente atenção e controle inibitório. Associação não significa que os vídeos sejam a única causa, mas o dado ajuda a entender por que textos longos, repetitivos e pouco pessoais encontram cada vez mais resistência.

É justamente aí que surge outra armadilha para as empresas de eventos. As pessoas começaram a enviar textos enormes, produzidos por inteligência artificial, para clientes, fornecedores e parceiros. Muitas dessas mensagens não serão lidas até o fim. Não apenas porque são grandes, mas porque frequentemente demoram para chegar ao assunto, repetem ideias e usam uma linguagem que não combina com quem está enviando.
Para piorar, quanto mais convivemos com ferramentas como ChatGPT, Claude e Gemini, mais percebemos alguns padrões. Mesmo quando tentamos orientar a inteligência artificial a não utilizá-los, certas construções continuam aparecendo. O texto pode estar correto, organizado e até parecer bonito, mas também pode soar igual a uma legião de outros textos produzidos pelas mesmas ferramentas.
Não vejo problema em usar inteligência artificial para corrigir português, ajustar uma conjugação verbal, localizar uma repetição ou ajudar a organizar uma ideia. Muitas vezes, o próprio corretor ortográfico do celular ou do computador já faz parte desse trabalho. O problema começa quando entregamos à ferramenta não apenas a correção, mas também nossa forma de pensar, de explicar, de negociar e de nos relacionar.
Por mais competente que a inteligência artificial seja, um texto produzido inteiramente por ela pode neutralizar justamente aquilo que diferencia uma pessoa ou uma empresa. Quem está falando naquela mensagem? Você, com sua experiência e seu modo de enxergar o trabalho, ou apenas mais uma ferramenta repetindo uma forma de comunicação que já aparece em milhares de outros lugares?
Esse assunto também poderia ser estendido aos vídeos, mas isso pode ficar para outro artigo. Caso contrário, este texto corre o risco de ficar ainda maior do que já ficou.
Onde eu queria chegar, e espero ter chegado, é que precisamos continuar investindo naquilo que nos torna únicos. Isso inclui nossas experiências, nossas imperfeições, nosso jeito de falar, nossos medos, nossas ansiedades, nossos momentos de raiva, um pouco de impaciência, nosso sal e nosso tempero. Tudo aquilo que construímos desde a infância e que nos transformou em quem fomos, somos e ainda seremos.
A inteligência artificial é extremamente avançada e continuará evoluindo. Ela pode ajudar, corrigir, organizar e acelerar muitas coisas. Mas não viveu o que você viveu, não trabalhou onde você trabalhou e não carregou as consequências das decisões que você tomou. Ela pode reproduzir um estilo, mas não possui a trajetória, a alma e a individualidade de um ser humano.
Se você chegou até aqui no texto, e antes eu não te perdi para uma dancinha do TikTok nem para um videozinho de um gatinho tocando teclado no Instagram, te convido a conhecer o restante do nosso site, o nosso trabalho e a nossa empresa. Sinta-se em casa.
Se quiser conhecer um pouco mais sobre a BlueTie, entender o que oferecemos e descobrir como podemos ajudar no seu evento, ou atuar como parceiros da sua empresa no evento de um cliente, conte com a gente.
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